UMA ESTRELINHA FUGAZ!

História “UMA ESTRELINHA FUGAZ”, por Milcíades Joel Zaragoza Burgos.

Ninguém precisou me acordar cedo naquela manhã de outono. Era o dia da inauguração da minha nova escola ! Ansioso, pulei da cama e estreei o flamante uniforme, prendendo sobre ele a insígnia do colégio. Passei pela cozinha, onde Narciza fritava bolinhos de chuva, peguei uns três e saí em disparada ao encontro de Lucas e Manuel, que já me aguardavam no portão da minha casa.

A manhã estava radiante…. O tênue sol de abril dissipava algumas nuvens no céu, e dezenas de crianças andavam pelas ruas reluzindo em seus uniformes engomados rumo à escola. Havia um clima de euforia, alegria e expectativa no ar. A sete quarteirões da minha residência, já na quadra da escola, nós entramos à direita, e foi quando avistei uma cena que me impactou. De um automóvel azul escuro e comprido, um homem pegou em seus braços uma menina um pouco menor que eu e ajudou-a a endireitar-se numa muleta que parecia ser feita de aço e alumínio.

Eu a observava estarrecido e enlevado pela sua beleza incomum. E devia parecer tão aparvalhado que ela não pôde deixar de me notar, acabando por me presentear com o mais lindo e luminoso sorriso que eu já tinha visto até então.

Manuel me deu um safanão.

-“O que houve, Milcíades ? Viu um fantasma ?”, questionou ele.

-“Quem é ela ?”, perguntei.

Volvi, enquanto recomeçava a andar em direção à escola, mas com os olhos ainda fixos na garota.

E Lucas intrometeu-se:

-“É a minha prima Lorena. Acabaram de se mudar da capital, por recomendação do médico. Ela teve pólio !”, afirmou ele, com ar de pena.

-“Meu Deus”, retruquei admirado. “Ela parece um anjo !”.

Algumas meninas passaram correndo pela gente nesse instante, fazendo caretas e provocando-nos. Corremos atrás delas até a escola e, por um breve instante, esqueci da Lorena. Mas logo tornei a vê-la, quando o próprio pai dela entrou com ela em nossa sala e chamou a nossa atenção. Ele acabou tendo que se esforçar porque, à exceção de mim, todos corriam para lá e para cá gritando e provocando-se.

-“Hei, seus bravos! Durante um minuto, será que vocês conseguem prestar atenção em mim?”. Todos se aquietaram de repente, e o homem continuou: – “Esta é a minha filha Lorena, que será a sua coleguinha. E eu responsabilizo todos aqui pelo bem estar e segurança dela. Estamos entendidos?”

Nesse momento todos se prontificaram em ajudá-la, especialmente as meninas.

Colocaram ela para sentar-se numa carteira bem no centro e na frente da sala de aula. Eu aproveitei para sentar-me o mais próximo possível dela, logo atrás, na fileira ao lado. Aproximadamente 70% das crianças eram novas para mim, vindas das mais diferentes escolas. Eu já estava por completar 10 anos, enquanto a maioria mal tinha 8 ou 9 anos. O fato é que, infelizmente, eu fora reprovado no ano anterior, mas esse revés teve até o seu lado bom, pois assim eu me sentia um tanto quanto superior aos colegas. Meu pai era um próspero fazendeiro, e isto também fazia com que eu me sentisse mais abastado que meus novos amigos.

Assim sendo, tudo conspirava para que eu já me comportasse como um líder.

Lorena tinha cabelos castanho-claros e ondulados. A impressão que passava é que nunca tinham cortado seus cabelos, tão finos que eram. Ficavam ainda mais claros ao sol. Aliados ao uniforme branco e azul, transmitiam-me a imagem de anjinho que eu tanto admirava. Ela tinha um rosto muito lindo e grandes olhos cor de mel, era magrinha e passava a impressão de uma delicadeza incomum, com uma certa dose de fragilidade, o que fazia com que todos quisessem ampará-la.

Ela mantinha um certo distanciamento das pessoas, parecia humilde demais, quase envergonhada em meio a crianças tão cheias de vida e perfeitas ao seu olhar.

Ela tinha também um olhar triste, apesar de não ser sombrio, tampouco transmitia inferioridade. Era um olhar como que se pedisse desculpas, provocando admiração e comoção – principalmente em mim.

Depois que o pai dela cumprimentou a todos, despediu-se e retirou-se. Daí rapidamente tomei uma decisão. Fui para a frente do quadro negro, subi na mesa do professor e pedi a palavra:

-“Atenção turma ! Eu declaro agora oficialmente, para todos vocês, que eu sou o protetor número UM da Lorena. E qualquer um que ousar incomodá-la, mesmo que da forma mais leve, terá que ajustar contas comigo. E não será nada agradável, Capisce?”, afirmei, fazendo uma pose de potentado.

E Lucas logo se levantou em sua cadeira e interrompeu -“Eu, como primo, sou o segundo protetor de Lorena”.

-“Eu serei o terceiro, berrou Manuel.

E daí todos entraram na brincadeira.

-“Eu serei o quarto”, disse um deles.

-“Eu serei o quinto”, disse outro.

-“Eu serei o centésimo”, berrou um ao fundo, apesar de haver apenas 30 crianças na sala.

E ficamos todos na algazarra, até que o professor entrou na sala e impôs silêncio, mandando todos sentarmos em nossos lugares.

O professor pediu para que todas as meninas fossem para os lugares da frente, na primeira e segunda fileiras. Eu, por estar na terceira fileira, fui mantido onde estava.

E naquele primeiro dia apenas tivemos uma aula muito lúdica, onde nos apresentamos, falamos um pouco da nossa história e “adotamos” uns aos outros.

O professor começou assim:

-“Meus queridos alunos. A partir de agora vocês já estão grandes, já largaram as fraldas faz tempo. E está na hora de se cuidarem sozinhos. Até o ano passado as professoras e professores tinham que ficar de olho em vocês. Mas será que agora eu posso confiar que cada um já aprendeu a cuidar de si mesmo?”

-“Simmmmmm”, responderam todos.

-“Ok então. Agora quero saber se cada um de vocês pode adotar mais um ou dois colegas, para ficar de olho neles também”, comentou o professor.

-“Adotaaaaaar?”, berrou um ao fundo.

E as meninas resmungaram: “Ui, já me bastam meus irmãos”.

-“Ahhh, já chega o meu tio”, disse outra.

E uma terceira disse: “O meu pai trabalha em casa e só me incomoda”.

Até que uma delas, ainda resmungando, levantou a mão e perguntou: -“Professor…. nós, meninas, podemos adotar outra menina?”.

-“Temos um problema aqui, meninas. São 12 moças para 18 meninos”, disse o professor.

-“Nós vivemos num mundo onde existem meninos e meninas, homens e mulheres”, continuou. -“Vocês vão ter que aprender a lidar uns com os outros, porque hoje em dia é normal e conveniente misturar alunos com alunas”, finalizou.

E então eu levantei a mão e pedi a palavra. Uma vez autorizado, fiquei de pé e propus a solução que me pareceu a melhor saída (principalmente para mim). Cada menino adotaria uma menina e outro menino, ou duas meninas. E vice-versa, mas tendo que haver interação entre meninos e meninas em cada escolha. Eu precisava daquilo, tinha que me aproximar de Lorena.

Como o professor fez um sorteio, infelizmente fiquei fora do grupo de Lorena. Mas Lucas, vendo minha tristeza, logo propôs um grande negócio para mim. Ofereceu-me dar o nome dela em troca de minha bicicleta velha.

E eu não pensei duas vezes.

Agora eu me sentia todo bobo, rindo à toa. Estava no lugar certo, na hora certa, ao lado da mulher ideal. Estava convencido de que era a mulher da minha vida. Logo imaginei que teria que arranjar um emprego para poder comprar uma aliança e uma casa, além de um carro, porque ela merecia muito mais que aquela bicicleta velha da qual eu acabara de me livrar.

O dono da padaria tinha uma vez comentado com meu pai que eu seria um ótimo trabalhador, e eu tinha certeza de que ele prontamente me daria um emprego.

Depois daquele primeiro maravilhoso dia na nossa nova escola, eu me sentia mergulhado numa espécie de conto de Dickens, onde a realidade (de ter que me levantar, tomar banho, comer, fazer tarefas, ir à escola, etc) parecia estar em segundo plano. Eu vivia, cantava, rezava e respirava só pela Lorena. Ela não me saía da cabeça, nem enquanto dormia, sendo que meus sonhos eram apenas uma deliciosa extensão dos meus maravilhosos dias na escola.

Mal consigo me lembrar do conteúdo que os professores passavam. Até eles estão enevoados na minha cabeça. Lembro do professor de educação física apenas porque ele me permitia ajudar Lorena e outras meninas durante os exercícios que fazíamos. Ele parecia perceber o quanto eu estava atolado pela coleguinha, e meio que me incentivava.

Nos recreios eu levava bolos, empanadas, bolinhos e biscoitos para dar de presente para Lorena, tudo devida e previamente barganhado com nossa cozinheira. O negócio com Narciza era simples…. Eu lhe mostrava o dinheiro que meu pai me dava para comprar comida durante o recreio e a subornava para que ela cozinhasse tudo que eu pedisse. E quando faltava grana, eu pedia para meu pai um dinheiro extra, para comprar materiais didáticos (lápis de cor, papel, caderno, régua, etc), mas muitas vezes era para meu importantíssimo suborno. Não faltavam produtos novos numa suposta lista que eu inventava.

Assim se passaram semanas, até que se aproximou o aniversário de Lorena, no dia 07 de Junho, numa quinta-feira. Eu pedi permissão à diretora da escola para, no recreio, cantar parabéns para ela, com algumas comidinhas para festejar. E a diretora aceitou, autorizando o uso do teatro no segundo andar.

Preparei aquela festança, envolvendo minha cozinheira, minha mãe, a mãe de Lorena e mais algumas pessoas. A festa contou com bolo de chocolate, refrigerantes, salgadinhos, sorvetes, sanduíches, chocolate quente, etc.

Apesar da comemoração ter sido só para nossa turma, as quase 500 crianças da escola ficaram sabendo e todas acabaram comendo alguma coisa. Lorena estava eufórica, corria com sua muletinha, brincava e sentia-se especial. Não parava de sorrir, formando aquelas covinhas divinas que até hoje me perseguem em sonhos!

E tudo isto aconteceu durante os 30 minutos de recreio. Após todos se retirarem, fui conversar com Lorena, que me disse:

-“Obrigado Mil. Eu nunca esperava que você me fizesse uma surpresa assim. Foi muito legal, fiquei emocionada e adorei”, disse ela para mim.

Eu me sentei no mesmo banquinho que ela, de frente para ela, peguei em suas mãos, virei o seu rostinho para mim, dei um beijo na bochecha e falei:

-“Que bom que você gostou…. Foi uma alegria e um prazer para mim preparar esta festinha para você”.

Continuei observando-a, arrebatado, parecendo que nada mais existia, somente nós, nosso amor e a certeza de que existíamos um para o outro. Naquele momento nós éramos tudo. Nós eramos o mundo, éramos a bagunça do salão, éramos o banco onde sentávamos, éramos o edifício, éramos as crianças que tinham saído, éramos o mar, o céu, as estrelas, éramos…. DEUS.

Mas, neste momento, uma sensação de extrema urgência, de premência, tomou conta de mim. Sem conseguir segurar o ímpeto, as seguintes palavras quase que saíram sem pensar da minha boca, aos borbotões: -“Eu amo você Lorena. Quer ser minha namorada?”.

A sua risada cristalina e repleta de felicidade me atingiu.

E ela perguntou: -“O que significa ser sua namorada, Mil?”.

E falei: -“É a gente viver um para o outro. É a gente fazer um pacto de que vai se amar eternamente e ficar juntos sempre que pudermos”.

Lembro-me que ela ficou toda vermelha, e seus lábios rosados apenas balbuciaram:

-“Mas…. como é esse pacto, Mil?”.

Constrangido, tentando encontrar palavras para explicar-lhe aquilo que nem eu sabia direito, olhei à minha volta e vi um dos anéis de plástico azul que faziam parte das lembrancinhas que a mãe dela tinha preparado para a festa.

Peguei rapidamente o anel e fiz com que Lorena se virasse para mim. Saí do banco, ajoelhei-me e coloquei o anel de plástico no dedinho anelar da sua mão esquerda, dizendo:

-“Lorena Manfredi, você quer se casar comigo? Eu, Milcíades Joel Zaragoza Burgos, estou me oferecendo a você agora e para sempre. Sou seu !”.

Ela ficou desconcertada. Porém, ao encarar tudo isto como uma brincadeira, soltou então uma deliciosa gargalhada e respondeu:

-“Claro meu Mil, meu dez Mil, meu Um Milhão, meu Um Bilhão. Eu acho que também te amo. Eu aceito me casar com você, embora não sei se sou sua ou de Deus”.

-“Deixa que com Ele eu me entendo”, falei, cheio de mim, como se pudesse lidar facilmente com meu Criador. E nos abraçamos.

Eu a levantei do banquinho, colocando os pezinhos dela em cima do meu sapato. E saí a dançar com ela pelo salão, sem música, cantarolando o pouco que conhecia da melodia da valsa Danúbio Azul (clique para assistir).

-“Na na na na na. Na na. Na na.

-“Na na na na na. Na na. Na na.”

E ela me acompanhou. Ficamos tão enlevados que eu só posso dizer que flutuamos, porque eu não sentia seu peso. Era como se ela pertencesse ao meu abraço, era como se fosse a prolongação do meu corpo, da minha vida. Ela era tão etérea, mas tão intensa.

E nem notei que o pai dela estava em pé, ali perto, observando-nos, sorrindo.

Parei imediatamente. Meu sogro chegara.

-“E então aniversariante, está na hora de ir”, disse ele.

E arrancou-a dos meus braços, quebrando o encanto daquele momento mágico e efêmero, mas eterno em meu coração e em minhas lembranças.

A última imagem de que lembro foi ele se afastando com ela nos seus braços. E eu correndo atrás deles com a muletinha dela que tinha ficado no banco enquanto dançávamos. Desde então e até hoje, ainda sinto a sensação do seu tênis branquinho em cima dos meus pés, calçados com mocassins pretos de couro.

Infelizmente…. esta foi a última vez que a vi.

E mais tarde me contaram que após o almoço, naquele mesmo dia, ela repentinamente começou a ter uma febre alta e convulsões. Imediatamente foi levada para um hospital na capital, onde ficou 48 horas internada, vindo a falecer. Tinham se passado somente três dias de seu aniversário, e eu soube que ela foi enterrada com o solitário de plástico azul no mesmo dedinho onde eu o colocara naquele momento tão especial !

Ai!

Ainda hoje eu me lembro que fiquei completamente desolado naquela época. De repente tudo parecia diferente, apesar de eu saber que estava tudo igual. O sol continuava nascendo e se pondo. A chuva caía. No meu aniversário de 10 anos, em 14 de Outubro daquele mesmo ano, eu não quis festa. Ainda assim meu pai me presenteou com um lindo pônei. Eu até desfrutei, mas nem milhões de pôneis como aquele sanariam a tristeza que se instalou em meu coração. Eu já não brincava da mesma forma. Fiquei taciturno. E apesar de eventualmente começar a me recuperar (até certo ponto) e a ter outras expectativas e esperanças para a minha vida, eu sentia uma espécie de solidão que nada nem ninguém conseguia amenizar. Sonhava com ela quase todas as noites, sentindo seu corpinho delicado e seu aroma doce e suave – além de seu olhar de menina pura e ingênua, com seu sorriso único de covinhas estonteantes….

Entrar na adolescência normalmente é um desafio enorme para a maioria das pessoas. Mas, para mim, foi um alívio. Perder a inocência e perceber que a vida era mais dura do que imaginava acabou por me tranquilizar. Era como se o mundo inteiro estivesse se adaptando à minha perda, à minha dor. Continuei rico, elegante, inteligente e muito bem sucedido, tentando me adaptar a uma sociedade que ignorava uma dor que eu não conseguia superar, apesar dos meus esforços.

Para todos eu sou um vencedor.

Para mim, não passo de uma sombra.

Mas não passa um dia em que eu não me pergunte “como seria minha vida hoje se Lorena tivesse permanecido na Terra?”.

Será que aquele amor foi assim tão avassalador porque me pegou na tenra infância? Será que os anos o teriam amenizado se ela não tivesse partido?

Será que ela teria seguido um caminho diferente?

Talvez….

Mas o que eu gosto mesmo de imaginar é nós dois juntos, namorando, amando-nos, casando-nos. Ela adulta, curada das sequelas da pólio, dando-me filhos.

Bem…. não quero ser ingrato, mas, como homem apaixonado, eu me dou o direito de aceitar que, quando ela se foi, grande parte da minha inocência, da minha confiança e das minhas certezas se foram também, junto com meu potencial e tudo aquilo que gostaria de ter realizado em minha vida – com ela ao meu lado, é claro !


Comentários de JORGE ZAHELL

Puxa…. Fiquei tão abalado quando ouvi esta história. Imagine que impacto algo assim tem numa criança ! Mas a vida de Milcíades continuou. Ele até teve seus momentos, apesar de que, pelo relato acima, não tenham parecido ser tão reconfortantes.

Que lições podemos tirar desta história?

E você leitor, o que diria a ele?

Como se comportaria no lugar dele?

Como você o consolaria?

Bem…. se eu estivesse no lugar dele, talvez já tivesse morrido duas semanas depois que Lorena partiu. Quanta dor…. Porém, na qualidade de alguém que quer ajudar as pessoas a terem uma melhor compreensão do amor e da vida, hoje, não tendo morrido, eu diria em seu lugar (se ele me permitisse tal ousadia):

“Eu admito sinceramente que levei muitos anos para compreender que um amor não tem seu valor diminuído apenas porque foi interrompido antes do que eu gostaria.

Eu vivi, eu amei…. E, aos 9 anos de idade, eu fiz mais do que muitos marmanjos adultos fizeram em todas as suas vidas.

Eu realizei uma linda festa para Lorena, dei a ela muito mais do que poderia esperar de um aniversário. Eu dei a ela meu coração, minha vida.

Talvez eu não tenha me dado conta da grandeza dos meus atos naquele momento. Hoje, analisando em retrospectiva, acredito que estava inspirado, como se sentisse que ela logo partiria. Fico muito feliz de ter seguido meus sentimentos e me permitido viver aquele idílio mágico e falar TUDO que sentia por ela naquele momento.

Talvez eu não tenha sido suficientemente grato ao que a vida ainda teria por me dar depois daquela catástrofe. Escolhi a tristeza, a melancolia e vivi na sombra daquela perda.

Só agora percebo que eu poderia ter experienciado inúmeras outras histórias fantásticas de amor, porque a vida, em sua infinitude, sempre tem mais alternativas a nos apresentar.

Talvez eu tenha deixado de viver a plenitude da minha vida porque fui egoísta ao querer guardar, só para mim, aquela que considero a única história de amor perfeita: Lorena e Eu.

Talvez eu não compreendia que o amor pode se manifestar de diversas formas e sob as mais variadas facetas, e que Ele, o amor, é infinito em si, podendo inclusive transcender a si próprio nas mais variadas versões.

Hoje me dou conta de que preciso (e mereço) me abrir para quaisquer formas de amor, das mais variadas fontes e pessoas. Ter desprezado outras alternativas amorosas só me afastou do que eu mais queria: AMAR.

O amor, sendo infinito, sempre pode oferecer algo novo e ainda mais encantador, desde que estejamos na mesma sintonia que ele. Isto não significa que não sou solidário à dor que senti na ocasião da morte de Lorena, e também com todos aqueles que, como eu, tiveram uma perda aparentemente tão irreparável como aquela. Compreendo que todos precisamos de um momento de luto, de reajuste, mas, em algum instante, devemos também nos abrir para novas possibilidades e seguir em frente.

Só agora, depois de muito sofrimento, eu percebo que carrego dentro de mim a minha amada Lorena, bem como meu amor por ela. E sinto que nosso reencontro é inevitável. Mas também me dou conta de que, enquanto não acontece, posso (e até devo) viver plenamente minha vida, encantado por ela (apesar de, por vezes, ainda estar triste por aquilo que considero uma perda).

Só agora estou começando a entender que a vida plenamente vivida vai me trazer tudo que preciso para continuar na minha jornada, inclusive um outro amor – que talvez não substitua aquele que se foi, mas pode ser tão interessante e maravilhoso quanto meu primeiro amor”.

Eu observo que, após perder Lorena, Milcíades já não conseguiu abrir-se novamente por completo, o que contaminou toda a sua vida e possíveis novas experiências que atrairia a partir de então. Quando a pessoa compreende O Que a Vida É, ela intuitivamente SABE que vai reencontrar qualquer amor perdido em algum momento da eternidade, e não escolhe se sentir e se comportar como se estivesse emocionalmente amputada. E esta verdade é um bálsamo que nos consola, apesar de não extinguir a dor (especialmente no começo que segue qualquer acontecimento trágico).

Por fim, concluo dizendo que, apesar de minhas prévias reflexões, sei que esse amor breve e precoce cumpriu seu objetivo, independentemente de como Milcíades interpretou os eventos depois da partida de Lorena. Lembre-se que o amor sempre vale a pena. Somos nós que tentamos colocá-lo em nossos moldes preestabelecidos, e ficamos frustrados quando ele aparentemente ignorou nossos anseios.

Milcíades foi agraciado com este presente da vida, viveu algo mágico e foi um homem de verdade aos 9 anos de idade. Mas se depois ele não teve a compreensão e o alcance necessários para ficar em paz, isso nem é o mais importante, porque o ponto principal é que o amor teve a oportunidade de se manifestar da maneira mais impactante possível. E Milcíades soube aproveitar muito bem – ao menos por um breve período de tempo.

Com uma Consciência expandida sobre a vida, a experiência da perda de um grande amor é colocada em uma perspectiva mais elevada, e o impacto já não é mais tão devastador como quando a pessoa não tem o entendimento apropriado.

Portanto, quando e sempre que se deparar com uma oportunidade amorosa, arrisque-se, pague o preço, quebre a cara se for preciso.   

Vai valer a pena, eu garanto! 

Porque mesmo que venha a dar tudo errado, ainda assim a vida vai lhe recompensar mais adiante, dado que você não se acovardou, não sucumbiu aos próprios medos. 

A questão é que ESTE é exatamente o objetivo de cada experiência da vida: fazer você perceber que pode TUDO, que não há o que temer, que em todas as aventuras e desventuras da sua jornada você estará sempre amparado por uma Parte Maior sua que sabe que você é Eterno, Indestrutível, Maravilhoso, Irresistível e Invencível – mesmo que você ainda duvide disto.   E esta Parte Maior não desistirá de você até conseguir (em algum momento de sua jornada eterna) lhe ajudar a expressar, em vida, “aqui”, toda a grandeza que você possui “lá” – e que sempre foi sua.   E “lá” não é melhor que aqui (por mais que lhe pareça).

Quanto ao nosso amigo Milcíades, viveu sua vida sem tirar da cabeça aqueles momentos sublimes da infância. Pois é…. Se você estiver interessado, pode ouvir a música favorita dele clicando aqui – a música que mais lhe fazia lembrar de sua amada Lorena.

Ficou curioso?   

Deixe seus comentários nos campos apropriados logo mais abaixo (em: Leave a Reply) e clique em POST COMMENT (postar comentário). Seu email não será publicado.

Quer saber mais?

Então…. Vem comigo !

Esta história foi retirada do livro MANUAL DO HOMEM APAIXONADO – PARTE 1 – ainda a ser publicado em breve, aqui neste mesmo blog (onigya.com) na seção BOOKS do Menu. Ele contém muitas histórias cheias de Consciência, Amor, Paixão e Romance, tudo comentado por mim a partir de uma perspectiva mais elevada da vida (que vem diretamente de uma Consciência Cósmica — assim chamada no livro citado). Outros livros e sugestões também estarão disponíveis na sequência.

Boa sorte!

JORGE ZAHELL
Image by Myriam Zilles from Pixabay

8 Comments Add yours

  1. Shirene says:

    Simplesmente maravilhoso!
    Melhor ainda é teu retrato sobre o amor. Tuas observações.
    Parabéns pela maestria em escrever e passar essa mensagem tão linda sobe o AMOR.

    Liked by 1 person

    1. Jorge Zahell says:

      Muuuuito obrigado ! 😉

      Like

  2. Que delícia! Adorei… Abraço, Miriam

    Liked by 1 person

  3. Rosane Gandin da Rosa says:

    Parabéns por sua histórias sobre o amor, em sua mais bela forma! O autêntico e verdadeiro!!!

    Liked by 1 person

  4. MARIA ALICE HUBSCH says:

    Parabéns!!

    É muito gostoso ler e reler, pois toda vez encontro algo que deixei para trás.
    Bjos

    Liked by 1 person

    1. Jorge Zahell says:

      Pois é Maria Alice. Pra ser sincero, toda vez que reli esta história, eu chorei. Dá um nó na garganta….
      A gente se coloca no lugar do personagem principal….
      Que bom que você gostou.

      Like

  5. Elton José Bechtold says:

    Jorge, essa história de amor de uma criança de 9 anos de idade, da lições a nós adultos, do que é ser o verdadeiro gentleman. De como uma dama deve ser tratada. Sensacional !

    Liked by 1 person

  6. Jorge Zahell says:

    Pois é, Elton.
    O Milcíades foi O CARA!
    Pena que nunca conseguiu superar a tragédia e seguir adiante. Confidenciou-me suas angústias e não entendeu que a vida sempre tenta compensar qualquer vazio que fica – desde que permitamos (confiando na vida, em vez de escolher parmanecer na depressão). A vida nunca desiste da gente, somos só nós que, por vezes, fazemos isto – temporariamente.

    Mesmo Milcíades já tendo partido deste mundo há algum tempo, a carta que escrevi em nome dele (no texto da história) teve o propósito de ajudá-lo. Sinto que agora ele tem chance de encontrar paz através daquelas palavras, e também através da compaixão e carinho das pessoas que lêem a história e se comovem.
    Talvez agora ele finalmente possa se abrir e permitir que sua Estrelinha Fugaz o visite para levar-lhe seu brilho nada fugaz. Ele só precisa mudar de sintonia, ser grato e voltar a acreditar que JAMAIS SE PERDE UM AMOR.

    Elton, ninguém morre de fato, apenas partimos em direção a outra experiência. E assim o fazemos vida após vida, até um dia resgatarmos nossa Consciência Plena, quando finalmente mergulharmos na Fonte da qual nunca saímos de fato – só não nos dávamos conta disto.

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s